Gelfand foi o grande campeão do Torneio de Candidatos, derrotando o "cool poker player" Grischuk na final. Se, por um lado, um certo romantismo inerente à personalidade do jovem russo derrotado lhe angariava uma legião de fãs, dentre os quais se inscreve este cronista, por outro lado a vitória de um enxadrista símbolo do xadrez ciência nos serve para relembrar o árduo trabalho para chegar e se manter no topo.
Gelfand merece nosso respeito. Rápidas foram as condenações ao seu estilo de jogo, à sua persona sem carisma e outras baboseiras. Como me referi a Fischer, certa vez - um enxadrista é medido por seus lances. E os do Gelfand são de categoria. Quanto ao estilo de jogo, tenho o seguinte a declarar: aqueles que não conhecem profundamente o xadrez têm a tendência de creditar genialidade somente àqueles que promovem complicações no tabuleiro e demonstram sua força táticae cálculo superior. É mais fácil de se entender um xadrez matemático e concreto do que um xadrez profilático e abstrato. Por essas razões, Alekhine, Tal, Fischer e Kasparov, por exemplo, são colocados em um nível mais alto do que Lasker, Capablanca, Petrosian e Karpov. O jogo destes últimos, com seus mínimos detalhes posicionais, é muito menos vistoso e muito mais difícil de se entender do que o jogo de primeiro grupo. E digo mais: a grandeza do segundo grupo (estilo no qual se enquadra, guardadas as proporções, Gelfand) é equivalente a do primeiro: o resultado seria 2 x 2.
O estilo científico do israelense vai além do estudo profundo de variantes de abertura. Certa vez o escutei discorrer sobre os efeitos nocivos de tomar sol (que suga nossas energias) antes das partidas.A impressão é que ele tem tudo metodicamente programado. E sua lógica deu certo. Está desde o início doas anos anos 90 na elite do xadrez mundial, foi Campeão da Copa do Mundo e do Torneio de Candidatos.E foi vice no Campeonato Mundial disputado no México, para quem não se lembra; Se em suas veias corresse o fervente sangue latino, certamente pensaria: "Vão ter que me engolir!". Mas tenho certeza que ele não dá a mínima para seus detratores. O simpático desafiante, que sempre cumprimenta toda a delegação brasileira em Olimpíadas e afins, só quer saber de melhorar seu jogo.
Além do mais, confesso que me decepcionei com Grischuk no match final. Depois de apertar o Gelfand nas duas primeiras partidas, simplesmente desistiu de forçar as partidas, talvez devido ao cansaço. O russo, dentre suas curiosas idiossincrasias, tentou revolucionar a estratégia historicamente admitida em matches, invertendo sua lógica: passou a empatar rapidamente de brancas e jogar para ganhar de pretas. Tivemos a prova cabal que nem todas as ideias boêmias levam ao sucesso: foi derrotado, de pretas, pela mão pesada de Gelfand, na última partida.
O que esperar do encontro com Anand? O indiano deu mais uma prova de sua classe ao despachar sem problemas o inconstante Shirov, em um match de rápidas. Gelfand deve perder o match, porque Anand faz todo o trabalho científico, com um diferencial:
é um gênio. E é um dos melhores enxadristas da história. Quando eu estava treinando em Moscou, perguntei a Dvoretsky o que faltou para que Yusupov fosse campeão mundial. A resposta: "He´s not a genius, like Anand". Por essa razão, salvo uma grande zebra, )Boris Gelfand também não será.
Slav Defense - OnlineChessLessons.NET
28 minutos atrás

